Todo estudante de cinema-documentário já viu esse filme. É chover no molhado. Nanook é, sim, uma referência quando se discute a ética de qualquer narrativa. Vi e revi este doc tantas vezes que já não importa até que ponto o autor forjou ou não cenas da vida real. Mas e daí? Ao escolher um tema para ser retratado em vídeo ou película, o documentarista já tomou partido. Já tem uma opinião formada sobre determinado assunto e deseja, na maioria das vezes, tornar público o seu olhar sobre aquele assunto. Pois bem, o que fazer, então, na hora de selecionar os planos e personagens daquela estória? Escolher os enquadramentos? As sequencias? Dar mais ou menos espaço para um personagem. A simples opção por este ou aquele entrevistado pode ser parcial e decisiva no resultado final da obra. Deixar de conversar com algum representante contrário àquilo que se propõe ser narrado pode, da mesma maneira, se transformar em um tiro no pé do autor.  Por isso as escolhas terão, quase sempre, 50% por cento de chances de dar certo. Mas o que, de fato, é certo ou errado quando se faz um registro documental? O que é verdade ou mentira na tela grande? Imagine quantos cinegrafistas, fotógrafos, repórteres ou documentaristas já enfrentaram o dilema de salvar uma vítima ou retratar a cena. Até que ponto o ser-humano é sensível ou não aos fatos na sua frente? Quando é o momento de desligar a câmera em algo que se diz ser documentário? Será que não nos resta nada além de saber dosar a medida certa para permitir que um relato seja fiel à realidade? Não sei. São muitas perguntas e não imagino aqui ter respostas. O importante é refletir. Só sei que o ponto de vista sobre alguma coisa é, simplesmente, a vista de um ponto. É preciso se afastar para enxergar melhor. E esse ponto de observação sempre será plural e democrático. Cada um tem o seu. O  Robert Flahyert, autor do que é considerado o primórdio do documentário, tinha o dele.