Me lembro até hoje da sensação de aperto atrás das orelhas causada pelas hastes de metal dobráveis dos óculos com 4 graus de hipermetropia que uso desde os 6 anos de idade. Com ele dei meus primeiros dribles no campinho da escola em Petrópolis. O cheiro das hortências enfileiradas naquele momento sublime traz à lembrança a casa da minha avó Maíta. Lugar tranquilo, cercado por cachorros e pássaros desde os idos de 1900 e alguma coisa. Torcedora do Flamengo das mais fervorosas, conseguiu driblar com extrema categoria o sangue tricolor do marido para passar aos dois filhos homens, entre eles, meu pai, a paixão pelo Flamengo. Não, meus senhores. Não, minhas senhoras. Esta não é uma história do rubro-negro da Gávea. Trata-se de algo mais intenso, pelo menos para mim. A julgar pelo corte de cabelo – obra de um psicopata das tesouras, mero aprendiz do oficio ou ainda alguém que estava de papo pro ar quando cortava minha franja –  dá pra imaginar a tensão que se fazia presente. O ano era de 1986. Cerimônia de entrega do Brasileirão. Bom, prefiro chamar assim para dar mais pompa ao evento. Categoria: fraldinha. Prêmio: destaque do campeonato. Destino: jornalista. Ah, sempre falei pra mamãe sobre aquele pensamento do Pica-pau [Mulheres, mansões, carros, iates, viagens…] tudo isso bem que poderia ter se tornado realidade se minha carreira nos gramados não tivesse sido abreviada pelos bancos da escola, afinal de contas, naquele momento eu estava no auge.

Este era o escrete alvi-negro do Petropolitano Futebol Clube. Time que defendi nas categorias de base dos 11 aos 14 anos. Melhor posição no torneio municipal foi um segundo lugar. Derrota para o Serrano nas finais. Pura falta de sorte. Por falar em falta, na falta do uniforme oficial, jogávamos com a camisa do Atlético Mineiro, que era parecida. Sem mais explicações. Coisas de escolinhas de futebol. Os treinos eram aos sábados pela manhã e às quartas depois da escola. Jogos oficiais aos domingos com a molecada entupindo uma kombi e os pais seguindo o comboio pelas periferias da cidade imperial. As conversas no trajeto para o campo adversário eram sobre os episódios de Armação Ilimitada, seriado global estrelado por Juba, Lula, Bacana, Zelda Scoth e, claro, o chefe, grande personagem interpretado pelo impagável Francisco Milani. Jogava com a 8. Meia armador. Tinha a missão de bater os pênaltis nos jogos, responsabilidade só colocada à prova uma única vez: com a bola na rede, obviamente. De resto, esta foi uma das melhores fases da minha carreira futebolística onde a peleja era mais importante do que nota em prova de matemática.

De pé: O comandante Cizo (nome lembrado por meu pai, que tem uma memória melhor que a minha), Marcos, Peixoto, Guto, Fred, Renato, Silas e Rafael. Agachados: Crespo, eu, Hingo, Bruno e Pedro (meu irmão).

Bons tempos.