Reparem nesta foto. Ao meu lado esquerdo, o pesquisador do Projeto Nova Cartografia Social, Franklin de Carvalho; à direita, Roberto Sousa, mobilizador comunitário do Canal Futura. Durante uma semana nós três percorremos o sertão baiano em busca de estórias de moradores de comunidades tradicionais e sua forma de organização social. Bela experiência!

 

 

Abaixo o relato da jornada sob as palavras de Roberto, um grande praça!

“Aquela manhã de sábado de Janeiro, verão com sol a pino, foi a primeira vez que nos encontrávamos, eu – mobilizador do Futura,  Zé Brito – repórter do Futura, o Frankilin – pesquisador da UFBA e do Projeto Cartografia Social,  e o Passos,  motorista que, com sua a competência ao volante e as histórias curiosas e cômicas (legadas pelos bem vividos anos de estrada), ia encurtando o caminho a cada palmo de estrada sertão a dentro.

Partimos de Salvador. Senhor do Bomfim, cidade sertaneja, na região norte da Bahia, 400 km adiante, foi a cidade a que chegamos, depois de entusiasmadas e dialogadas 05 horas e meia de viagem.  No caminho, muitas conversas que tivemos giravam em torno da compreensão sobre os cenários que iríamos nos deparar, bem como acerca dos atores sociais com que iríamos nos relacionar ao longo daqueles dias.   O Franklin, com um misto de olhar cientifico e empírico, ia nos ajudando a criar as primeiras impressões sobre o que seria aquela ensolorada semana. Na outra ponta, o Zé e eu íamos trazendo elementos que ajudassem o Franklin a entender o que fazia o Canal Futura se interessar por uma incursão como aquela.

Não deixamos também de já ir vislumbrando o que poderia resultar o uso de equipamentos, à primeira vista, tão limitados do ponto de vista tecnológico numa tarefa experimental: com uma câmera de mão e um programa de edição de apenas alguns megabytes, instalado num computador portátil, gerar matérias no interior da Bahia, remetendo-as, via web, para exibição no jornalismo, quase que “em tempo real”. O Zé Brito (de nós quatro, o mais afinado com a linguagem técnica da produção audiovisual) advertiu-nos sobre a possibilidade de, inclusive, não ser possível cumprir parte da tarefa, pois, não dava pra prever quais as reais dificuldades seriam encontradas. O Franklin (de nós o mais surpreso com o diminuto tamanho da “equipe televisiva”: um repórter , uma câmera limitada e um mobilizador) não escondeu que imaginara uma outra coisa quando soube que estaria com o Canal Futura  pelo sertão registrando experiências de Cartografia Social. Eu (de nós, o que mais ansiava por saber no que aquilo iria dar) aproveitava a angústia do inesperado pra ir aprendendo um pouco mais tanto de produção audiovisual como sobre Cartografia Social e sertão da Bahia.

No sindicato dos trabalhadores rurais de Senhor do Bomfim, encontramos já reunidos, independente da nossa presença, lideranças do Central de Associações de Fundo de Pasto. O encontro tinha como fim discutir ações para uma espécie de fórum que, dentro em breve, iriam realizar imbuídos do desejo de encaminhar consensos para as questões atinentes às suas labutas. O Franklin nos apresentou àquele grupo que, acolhedor e simpático, colocou-se à disposição para, com o seu modo de viver e as suas maneiras de pensar o mundo, nos ajudar a ir construindo a “narrativa Futura” que iria para a tela.

O que logo nos inquietou foi o desejo de saber como aquele grupo definia a sua realidade e como gostaria que o telespectador compreendesse o “Fundo de Pasto”. Em camisas trajadas por alguns, um slogan (“Fundo de Pasto: Nosso jeito de viver no sertão”) denunciava o orgulho de pertencer àquelas comunidades que, de um jeito peculiar, vivenciam experiências de uso compartilhado da terra, auto-sustentabilidade econômica, posicionamentos políticos bem construídos e fundamentados e que evidenciam uma forma de perceber o semi-árido bastante diferente do que é costumeiro enxergarmos pelas lentes da mídia em geral.

De um modo simples, com muita propriedade e desejo de falar de si e de seu povo, o jovem Carlos Eduardo ou a professora Tânia, duas das lideranças com quem dialogamos, diante daquela câmera, cujo áudio competia com o barulho do vento catingueiro, deram voz aos conflitos que desafiam as vidas das suas comunidades, destacando a ausência de políticas público-fundiárias que garantam a segura posse da terra, o bem-estar dos cidadãos e a permanência do jovem no seu sertão.

A família da Profa. Tânia nos acolheu no dia seguinte, Domingo, na zona rural de Bomfim, e deu sustança ao nosso grupo, oferecendo um café da manhã típico do sertão. Na simplicidade daquela cozinha e degustando ovos de galinha de quintal, leite de cabra e cuscuz de milho, começamos a ouvir as histórias da família do Sr. Manoel (pai da professora). Ele, sua esposa e irmão, iriam nos guiar, após aquele delicioso café, por algumas partes daquela caatinga que se abeirava ao quintal, para que assim tudo, que até então tínhamos ouvido no encontro das lideranças, começasse a ter os elementos que facilitassem a nossa compreensão. 

Bodes e cabras avistados no terreiro materializavam o que ora já nos diziam algumas lideranças em Bomfim: a caprinocultura está na verve da vida no Fundo de pasto. O Bode é resistente às adversidades climáticas do semi-árido e é, ao lado do umbuzeiro, centenariamente, companheiro das lutas sertanejas diárias. Aquela manhã na zona rural de Bomfim, dentro de uma comunidade de Fundo Pasto, terminou com uma umbuzada (suco de umbu e leite) bem geladinha. Antes, a nossa câmera de mão, sempre buscando superar seus próprios limites, registrou diálogos do Zé Brito com o Sr. Manoel e a sua esposa, acrescentando à “narrativa Futura”, que esperávamos construir, mais cenários, sons, palavras-chave e sotaques que expressassem a visão de si e do mundo daqueles nossos anfitriões.

No inicio da tarde daquele mesmo Domingo, quando o sol dividia exatamente o meio do céu, já descortinava a nossa frente às paisagens e estradas que nos levariam a outra ponta do sertão. Rumamos para Oliveira dos Brejinhos.  Viagem longa, um pouco cansativa. Ás vezes, trechos ruins de asfalto pareciam deixar o caminho ainda mais longo.

Em Oliveira dos Brejinhos nos deparamos com a principal dificuldade para concretizar um das principais tarefas daquela aventura: remeter para o Rio de Janeiro, em forma de matéria para o Jornal Futura, o que já havia sido produzido até então: a tecnologia 3G que portávamos para uso da internet tinha sinal intermitente na região. Afligimo-nos face à possibilidade de não poder comunicar as experiências já editadas e armazenadas no lap top. Um alento nos foi dado quando, graças aos contatos do Zé Brito, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Oliveira dos Brejinhos nos abriu as portas e cedeu a sua estrutura de internet à rádio, com sinal estável o suficiente para possibilitar a sonhada transmissão. Esse local nos serviu de QG ao longo daquela semana que estava apenas iniciando. 

Lá na Várzea Alegre, comunidade que se avizinha a BR 242, em Oliveira dos Brejinhos, sob o teto de telhas de barro de um galpão com estrutura simples e aconchegante, começava uma oficina conduzida pelo Franklin e pela Greice, outra pesquisadora do Projeto Cartografia. Advindos de diversas comunidades da zona rural de Brejinhos e Brotas de Macaúbas, lideranças de diversas associações se encontravam para, durante aquela semana, dentre outras coisas, obterem noções básicas sobre GPS e cartografia. Esse aprendizado unido ao saber tradicional daqueles sertanejos, às suas experiências na labuta e sobrevivência, às histórias de suas conquistas ao longo de décadas e às suas convicções se constituiria num instrumento de resistência, organização da luta e de posicionamento político: a Cartografia Social.

No transcurso dos 04 dias daquela oficina, tecemos diálogos de conhecimento mútuo com o grupo participante.  Pessoas de gerações diferentes, jovens, mulheres e homens, abdicando da labuta cotidiana para dedicar o seu tempo, ao longo daquela semana, a uma construção coletiva, que seria fruto de uma leitura de si mesmos, entre si mesmos e seus contextos, entre os seus contextos e as realidades alheias. Com aquela pequena câmera, com um repórter-cinegrafista-aprendiz-de-mobilizador  e um mobilizador-aprendiz-de-repórter-cinegrafista, o Futura estava lá com o papel de dá eco em sua tela, àquelas discussões, dá voz para que aqueles personagens falassem de si para o Brasil. Para construir mapas auto-referentes, que se tornarão instrumento de resistência e busca por direitos, as lideranças burilaram em questões que passaram por problemáticas ambientais (como a escassez o Umbu e a necessidade de preservação da caatinga), leis e políticas de regularização fundiária, cooperativismo e economia solidária, conflitos inter-geracionais, valorização da cultura e fortalecimento sócio-político das comunidades de Fundo de Pasto.

Durante aquela semana, tivemos a oportunidade de visitarmos algumas das comunidades representadas na oficina de Cartografia. Testemunhamos com as lentes e a “a olho nu”, a aplicação “in loco” das noções técnicas que os participantes adquiriram acerca da construção de mapas. Dialogando e registrando aquela trajetória, vimos diversas experiências (dentre elas, cisternas de chuva, permacultura, cisternas de enxurrada, experiências de cooperativismo, uso compartilhado da terra) que sinalizam ser plenamente possível uma vida com qualidade no semi-árido, não obstante as adversidades que são peculiares do sertão.

Sempre contando com uma receptividade afável por onde passamos, numa dessas comunidades assistimos, junto com o grupo que nos acompanhava, a uma das matérias veiculadas no jornal Futura, sobre o ali fazíamos naqueles dias. Foi na casa da profa. Paixão, em Várzea Dantas.  A matéria, além de marcantes depoimentos e imagens daquele grupo no lugar em que o mesmo se reconhece, continha o registro de um reisado, cantado e dançado por membros de diversas comunidades, numa noite de cultural, dentro da oficina de cartografia. Sentimos felicidade ao percebermos e registrarmos a satisfação dos que ali assistiram. Por um momento, nos sombreou alguma certeza de que, apesar de toda a limitação tecnológica, aquilo que eles puderam assistir ver na tela do Futura alia-se ao esforço titânico que, todos dias, aquelas comunidades empreendem para se manterem fortes, pelo direito a uma organização sócio-produtiva diferenciada, pelo respeito à sua história e valorização do saber que acumularam ao longo dos séculos que habitam aquelas terras e nelas plantaram as suas esperanças e delas colhem, com muita trabalho e criatividade, a vida que tanto amam e querem ver assegurada pelas leis e políticas do Estado.

Obrigado semi-árido pelas lições de resistência e organização que pudemos testemunhar e contar, pelas narrativas dos próprios sertanejos, para o resto do país, ajudando a construir uma outra visão sobre a vida no sertão, para além da terra rachada e tudo a que a seca pode estar associada. E eu, como baiano, nordestino, agradeço ao Futura pela possibilidade de encabeçar a lista daqueles que já começam a mudar a sua compreensão sobre o nosso sertão. “