ARGENTINA - MARADONA

 

Ontem fui ao Festival do Rio. Tarde de terça-feira e pouco movimento no Estação Ipanema. Estava com dois amigos para assistir o documentário sobre a vida do maior jogador de futebol argentino e um dos melhores que vi jogar no mundo: Diego Armando Maradona. No início, cheguei a pensar que iria ver apenas belíssimos gols deste grande e polêmico camisa 10. No decorrer do longa-metragem, percebi que tratava-se de um relato apaixonado do diretor Emir Kusturica, nascido na Bósnia e que, apropriadamente, se incluiu na narrativa do filme.

O título original, “No te olvides de Fiorito”, faz uma referência ao bairro onde Maradona nasceu na capital Buenos Aires. Marcado por declarações fortes, o craque argentino e torcedor declarado do Boca Juniors não tem pudores ao manifestar suas opiniões, inclusive no que diz respeito a sua dependência de cocaína. Entre alguns momentos marcantes do filme estão encontros com políticos como Hugo Chaves, Evo Moralez e Fidel Castro. As cenas traduzem claramente  o perfil de um povo argentino bastante politizado e consciente da importância de nomes como Ernesto Che Guevara e Evita Perón.

 Maradona não poupa também o brasileiro, ex-presidente da FIFA, João Havelange – a quem atribui o título de Senhor das Armas do futebol mundial –  a máfia italiana e, principalmente, americanos e ingleses. A raiva pelos ingleses é citada a toda hora com charges e animações computadorizadas em que o craque dribla personagens da história política mundial, como a rainha da Inglaterra, Tony Blair e a família Bush. 

O ponto-chave do filme é o gol de mão feito por Maradona em jogo válido pela Copa do Mundo de 1986, no México, contra a Inglaterra. Segundo Dieguito, o gol representava muito mais do que uma simples vitória em campo. Representava a força de um povo que há pouco tempo havia perdido a guerra das ilhas Malvinas para a Inglaterra. O episódio na capital mexicana impulsionou uma já fanática legião de torcedores na Argentina, a ponto de ser criada, tempos depois, a Igreja Maradoniana – braço claramente folclórico das torcidas organizadas que consideram o argentino o Deus do futebol. O detalhe é que, para ser batizado na igreja, o fiel deve fazer um gol de mão idêntico ao que Maradona fez na Copa de 86. As cenas são, de fato, cômicas.

Bom fime. Abaixo, la mano de Dios e a Igreja Maradoniana – segundo a fé argentina, é claro.