O vídeo acima foi feito durante uma operação policial realizada no Rio de Janeiro. Participei quando apurava informações para uma série de reportagens sobre exploração sexual de crianças e adolescentes, que viria a desenvolver tempos depois nos estados do Rio, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e no Distrito Federal. As imagens foram feitas com uma câmera amadora. Em alguns momentos fiz uso de recursos, como baixa velocidade do obturador, para capturar cenas sem identificar as pessoas envolvidas. O recolhimento de moradores de rua é uma das alternativas do poder público no combate à exploração sexual infantil no Brasil.

Saí de casa às 3h da manhã de uma terça-feira. No ponto de encontro, policiais civis e militares,  guardas-municipais, conselheiros tutelares e assistentes sociais estavam a postos para a busca pelas ruas da cidade. Foram sete horas percorrendo avenidas, becos, praças, viadutos e outros cantos de uma cidade partida. Na madrugada, dentro de uma Kombi, sinto um misto de medo e tristeza. Ao meu lado, dois assistentes sociais. Um homem e uma mulher. Estavam acostumados ao processo. Eu não sabia o que iria encontrar, mas tinha certeza de que o que viria pela frente era algo que não queria ver acontecendo com a minha família. E, de fato, foi isso que aconteceu.

Uma das difíceis tarefas de um repórter é não se deixar emocionar diante do fato, independente do que for, onde for, com quem for. Confesso que, na prática, não funciona tão bem assim.

 

Tudo terminou de manhã, quando adolescentes chegaram a um abrigo no Centro do Rio, quer dizer, terminou pra mim. Voltei à minha casa e depois fui trabalhar. No entanto, aquela realidade, triste e recorrente, ainda assola milhares de famílias – que provavelmente retornaram aos mesmos lugares que os encontrei pela primeira vez. Tento imaginar o contrário ou, pelo menos, que não aconteceu a todos.

 

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