bomba no planalto

 

Alô, alô, rádio-táxi, 9h30, senão o bicho pega…”

O trecho acima é daquela música de Jorge Benjor, W-BRASIL. Ela me veio à mente esta semana quando peguei um táxi para retornar do trabalho. O motorista, de tão injuriado – não sei se com o avançar da hora ou por causa da cansativa rotina atrás do volante – sei lá, mas o cabra estava uma fera, e de tanto resmungar, começou a me contar sobre os seus planos para moralizar a política no Brasil.

– A única solução é explodir um carro-bomba no Congresso Nacional.

– É claro. Por que não pensamos nisso antes? – respondi com ar de ironia, embora entendesse a revolta do carro 057.

– Veja esse Sarney. O desgraçado já é dono de todo o Maranhão e não se cansa de mentir para o povo. Como era mesmo o nome daquele personagem do Chico Anysio que dizia: Eu quero mais é que o povo se f. – ops, desculpe, patrão, que o povo se exploda…. não era isso que ele dizia?

– Era isso mesmo, completei.

– Pois, então. Se o bigodudo lazarento não está nem aí para a opinião da gente, se ele continua metendo a mão nos impostos que a gente paga, se ele não pede nem para sair e ainda coloca os comparsas lá dentro… o jeito, patrão, é explodir tudo.

E o carro freia bruscamente  no semáforo. Confesso que cheguei a pensar em pedir para ligar o rádio. Estava cansado e não queria interagir naquele momento. Acho que até seria uma indelicadeza de minha parte. Desisti. Já nos aproximávamos do meu destino e ele insistia.

– Eu até poderia ajudar. Me lembro que na época da ditadura eu era um dos responsáveis pela fabricação de pequenos artefatos explosivos aqui no Rio de Janeiro.

– Coquetel molotov? Perguntei.

– Não. Bomba mesmo, mas nunca usei. Só ficava brincando de professor pardal no quartel. Sabe como é, né, patrão, é que nem bicicleta, a gente nunca esquece. 

– …

– E tem mais…

– Eu moro aqui.

– Boa noite, patrão. Precisando, é só chamar.

– A gente se vê. Se eu encontrar o bigodudo lazarento eu falo que você tá procurando por ele.

– Grande, patrão, já vi que o senhor é dos meus.

– Nem tanto, nem tanto… Boa noite.